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Comentário Bíblico - 2 Timóteo 4:2

Introdução
 Muitas pessoas têm usado 2 Timóteo 4:2 para justificar a pregação evangelística em quaisquer oportunidades, mesmo que as pessoas alcançadas pela pregação sintam-se constrangidas e incomodadas.

No Rio de Janeiro, por exemplo, muitas pessoas reclamam das pregações nos trens da Supervia e elas têm o direito de reclamar. Nós, que anunciamos o evangelho, estamos invadindo o espaço delas, é território do inimigo – “Ide! Eis que eu vos envio como cordeiros para o meio de lobos” (Lucas 10:3). Ademais, quando acordamos em um ambiente escuro e alguém acende a luz, sentimo-nos incomodados pela luz. Como poderíamos esperar que a luz de Cristo brilhasse nas trevas sem incomodar aqueles que estão acostumados com sua escuridão?

Meu objetivo com este comentário bíblico não é julgar quem se utiliza de espaços públicos como os trens para evangelizar. Não desejo desqualificar essa modalidade de evangelismo, nem questionar os seus resultados.  Trata-se apenas de uma exposição exegética de 2 Timóteo 4:2, segundo a qual Paulo não estaria sugerindo que deveríamos ser inconvenientes na pregação da palavra. Uma interpretação bem diferente do que tenho ouvido já há algum tempo.

Pregar ou evangelizar?

A oração é imperativa: prega a palavra! E segundo a gramática, o imperativo é usado para indicar uma ordem, pedido ou exortação. Não há dúvida alguma de que essa é uma ordem de Paulo, e pesquisar o significado de “pregar a palavra” no contexto bíblico deveria ser nossa primeira preocupação para saber como responder à sua ordem. Será que “pregar a palavra” teria o mesmo significado de hoje, ou estaríamos agindo de uma maneira completamente diferente do que foi ordenado?

É comum utilizarmos a expressão pregar a palavra como sinônimo de evangelizar.
— Hoje tive a oportunidade de pregar a palavra ao meu vizinho...
— Fui convidado por meu irmão para pregar a palavra a seus amigos de trabalho...

Podemos até dizer que uma exposição bíblica doutrinária do pastor dirigida aos membros foi uma ótima pregação (substantivo), palavra ou sermão; mas dificilmente vejo o emprego da expressão pregar a palavra aos membros da igreja como referência a doutrinamento.
— Hoje, meu sermão será sobre mordomia.
— Durante o congresso de pastores, tive a oportunidade de trazer uma palavra sobre liderança nos moldes de Cristo.
— O irmão seminarista poderia preparar uma palavra sobre serviço para o encontro de diáconos da próxima semana?

É estranho dizer que um pastor pregou a palavra a outros pastores. O objeto indireto do verbo pregar parece estar invariavelmente impregnado pela ideia de ser alguém ainda não convertido, ou no mínimo desviado. Mesmo sem diferença alguma no significado das palavras pregação e pregar, não sei por que fazemos essa distinção entre elas, que são apenas diferentes em classe: uma é substantiva, e a outra, verbo. E acredito que, pelo mesmo motivo inexplicável, algumas pessoas são levadas a atribuir o significado de evangelização à ordem de Paulo para pregar a palavra.

O próximo passo seria recorrer aos textos bíblicos para verificar se encontramos a mesma diferença no grego quanto ao emprego da expressão pregar a palavra, ou de quaisquer outras palavras correlatas, da mesma forma que ocorre em português. Se a mesma diferença não puder ser constatada, poderíamos afirmar, pelo contexto geral da epístola, que Paulo estava tratando do sermão doutrinário, e não necessariamente do sermão evangelístico.

A expressão κήρυξον τὸν λόγον /kēruxon ton logon/, tal como está em 2 Timóteo 4:2, não é encontrada em nenhum outro lugar da Bíblia. O termo mais próximo, em português e no grego, é pregar o evangelho, como encontrado em Gálatas 4:13, que corresponde a ευαγγελιζω /euaggelizó/ grafado em uma só palavra, ou na combinação das palavras κηρύσσων τὸ εὐαγγέλιον (pregando o evangelho) em Mateus 9:35. Kérussó é a forma infinitiva de kēruxon de 2 Tm 4:2, a qual pode ser empregada no contexto de evangelizar ou doutrinar, segundo o Léxico Grego Analítico de Harold K. Moulton[1]. Kérussó designa evangelizar em Marcos 16:5 e Romanos 10:14-15; mas também encontra-se empregado em um contexto mais próximo de doutrinar em Romanos 2:21 e Gálatas 5:11. Porém, em Lucas 8:39 e Apocalipse 5:2 o verbo kérussó está fora de qualquer contexto evangelístico ou doutrinário. O próprio léxico supracitado associa o significado da palavra kérussó aos arautos, que proclamavam a mensagem de Deus abertamente, em voz alta – “...e o que dissestes aos ouvidos no interior da casa será proclamado [kérussó] dos eirados.. Compare também os termos, já apresentados, com Lucas 4:18-19:

“O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar [euaggelizó] os pobres; enviou-me para proclamar [kérussó] libertação aos cativos e restauração da vista aos cegos, para pôr em liberdade os oprimidos, e apregoar [kérussó]  o ano aceitável do Senhor.”

Uma vez que kérussó poderia também designar doutrinar ou proclamar não seria válido, em minha opinião, afirmar que Paulo estaria referindo-se ao sermão estritamente evangelístico quando urge a Timóteo para pregar a palavra, insta em tempo oportuno ou não. A boa hermenêutica recomenda comparar o texto obscuro com textos mais claros, mas não há recorrência da expressão noutro contexto bíblico para determinar se a expressão era empregada somente em situações evangelísticas, ou não. Pela experiência e observação, posso dizer que isso é verdadeiro na língua portuguesa, invariavelmente empregamos a expressão pregar a palavra como sinônimo de evangelizar; mas não é possível estar certo quanto ao emprego da expressão em grego analisando as recorrências da expressão κήρυξον τὸν λόγον /kēruxon ton logon/, ou mesmo verificando o significado individualizado das palavras-chaves e correlatas. Resta-nos, portanto, o contexto do próprio versículo.

Contexto pastoral

As cartas de Paulo a Timóteo e Tito são consideradas suas cartas pastorais, porque são conselhos ao pastorado de seus dois filhos na fé[2]. O preparo de Timóteo e Tito pelas mãos de Paulo para liderar igrejas é evidente.

Tito é mencionado por Paulo em outras três epístolas além da epístola que recebe seu nome (2Co 2:13; 7:6-7, 13-14; 8:6, 16, 23; 12:18; Gl 2:1,3 e 2Tm 4:10). Sua conversão foi resultado da pregação de Paulo em Antioquia da Síria, e Tito recebeu missões delicadas, como: pôr ordem na igreja em Corinto (2Co 2:13; 7:6-7, 13-14; 8:6, 16, 23; 12:18) e liderar a comunidade cristã na ilha de Creta (Tt 1:5), motivo pelo qual recebeu a epístola de Paulo com instruções pastorais.

Timóteo era um jovem de aproximadamente vinte anos quando se encontrou com Paulo em sua cidade, Listra. Sua presença ao lado do apóstolo é marcada quatro vezes em Atos (At 17:14-15; 18:5; 19:22; 20:4), e Paulo faz menção de seu nome em oito de suas cartas (Rm 16.21; 1Co 4.17; 16.10; 2Co 1.1; Fp 2.19; Cl 1.1; 1Ts 1.1; 3.2,6; 2Ts 1.1; Fm 1), além de endereçar-lhe duas epístolas com instruções pastorais. Timóteo havia recebido o encargo de zelar pela boa doutrina na Ásia Menor.

A segunda epístola a Timóteo, objeto de nossa análise, foi provavelmente a última carta escrita por Paulo entre os anos 66 e 67, período que se encontrava preso em Roma. Ele já havia passado dois anos na prisão, na capital do império; mas foram dois anos de prisão atenuada que lhe permitia dispor de casa independente e receber visitas sem restrições (At 28.30). O tom da epístola é grave, pois o próprio apóstolo reclama das condições de seu cárcere e pressente sua morte (2Tm 1:16; 2:9 e 4:6-8). Era a última oportunidade de o apóstolo aconselhar seu discípulo sobre o melhor cumprimento da responsabilidade pastoral de que o havia incumbido com imposição de mãos (1Tm 4:14 e 2Tm 1:6).

Prega a palavra

Timóteo, o pastor aprendiz, recebia as últimas instruções de seu mestre: “Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina.” O que ele quis dizer com “prega a palavra”? Seria o mesmo que “Evangeliza, insta...”?

Observe o final do versículo. Corrigir, repreender, exortar com longanimidade e doutrina são palavras associadas ao cuidado pastoral com suas ovelhas, seria coerente amarrar o início do versículo com o seu contexto final. Levando em consideração o contexto pastoral da epístola, ousaria parafrasear o versículo da seguinte maneira: “Prega a palavra para corrigir, repreender, exortar e doutrinar as suas ovelhas com toda a longanimidade”. Lembre-se que a palavra pregar [kérussó] também é utilizada em outros textos com o sentido de doutrinar. Ademais, os versículos anteriores (2Tm 3:16-17) também estão dentro do contexto de conselhos pastorais sem qualquer associação à prática de evangelização.

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.”

De acordo com o contexto, toda a Escritura é útil para quê? Evangelizar ou doutrinar? Ensinar, repreender, corrigir e educar na justiça é próprio do trato pastoral com seu rebanho.

Ainda de acordo com o mesmo contexto, toda a Escritura é útil para quem? Para o não convertido? Claro que não! Seus benefícios são para o homem de Deus, para que ele seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra.

Logo depois de fazer essas afirmações sobre a utilidade da Escritura, dentro de uma ótica pastoral e doutrinária, Paulo faz seu apelo para a pregação doutrinária, corrigindo, repreendendo e exortando a Igreja com longanimidade nos versículos 1 e 2 do capítulo 4.

O versículo 3 ainda faz parte do mesmo contexto doutrinário, porque faz sentido presumir que os membros da igreja são os que se cercariam de mestres segundo suas próprias doutrinas por não suportarem a sã doutrina. Seria incongruente inserir os não convertidos nesse contexto.

Os manuscritos originais não eram divididos em capítulos e versículo, os quais comprometem a fluência natural do texto. Está reproduzido abaixo, todo o trecho que perfaz o contexto de 2Tm 4:2. Leia com atenção!

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra. Conjuro-te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina. Pois haverá tempo em que não suportarão a sã doutrina; pelo contrário, cercar-se-ão de mestres segundo as suas próprias cobiças, como que sentindo coceira nos ouvidos; e se recusarão a dar ouvidos à verdade, entregando-se às fábulas.”

Quando lemos o texto assim, do início ao fim, sem a segmentação de capítulos e versículos, percebemos mais facilmente que o objetivo de Paulo era orientar Timóteo quanto ao doutrinamento da Igreja, e o evangelismo claramente não faz parte do contexto.

Insta!

“Prega a palavra, insta, quer seja oportuno, quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina.”
 
A Almeida Século XXI, em sua nota de rodapé, apresenta o imperativo prepara-te como tradução alternativa para a palavra ἐφίστημι /ephistémi/, tradicionalmente traduzida por insta[3]. A Nova Versão Internacional traz a tradução direta sem auxílio de rodapé – “Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo”. 

A palavra ἐφίστημι /ephistémi/ tem dois significados.
A) Ephistémi = estar próximo, iminente. Ela reaparece com essa acepção em 2Tm 4:6 – “e o tempo da minha partida está próximo” [ARC]. Hoje, segundo o Dicionário de Dificuldades da Língua Portuguesa[4], instar é verbo obsoleto nas acepções de estar iminente e ser urgente, urgir.[5] Todavia, o emprego da palavra instar não corresponde à segunda definição da palavra ἐφίστημι /ephistémi/ como empregada em 2Tm 4:2.
B) Ephistémi = estar próximo, estar a postos, pronto para o uso - “Prega a palavra, insta [esteja a postos, pronto para o uso, preparado], quer seja oportuno, quer não...”
Entender insta como sinônimo de insistir é tão errado quanto aplicar o significado de irritar à palavra aborrecer[6] em Romanos 12:9 – “O amor seja não fingido. Aborrecei [tende aversão a] o mal e apegai-vos ao bem.”


Quer seja oportuno, quer não.

Precisamos nos agarrar ao contexto mais uma vez para entender o que Paulo chamava de tempo oportuno e inoportuno. No primeiro versículo do capítulo 3, ele diz que Timóteo enfrentaria tempos difíceis nos últimos dias. Comenta sobre a variedade de perseguições que sofreu em Antioquia, Icônio e Listra (3:11) e garante que todos quantos desejassem viver piedosamente em Cristo Jesus seriam perseguidos também (3:12). 

Por esses motivos (tempos difíceis e perseguições), Paulo aconselha: Prega a palavra, prepara-te, quer seja oportuno, quer não... encarando tempos difíceis, ou não... sofrendo perseguição, ou não... porque haverá tempo em que o seu rebanho não suportará a sã doutrina (4:3). Ou seja, não deixe para fazer amanhã o que você pode fazer hoje pelo seu rebanho, mesmo que isso seja inconveniente para você. Portanto, esteja pronto! 

Pregar a palavra em tempo oportuno ou inoportuno era uma preocupação do pregador pelo seu próprio bem-estar, não dos ouvintes!

Doutrina

A palavra traduzida por doutrina é διδαχῇ /didachē/, que também pode significar instrução ou ensinamento. Portanto, trata-se de um substantivo feminino e não do verbo doutrinar no imperativo.

Algumas pessoas poderiam considerar que Paulo realmente recomendou a pregação evangelística quando disse: “Prega a palavra... e doutrina”, como se a palavra doutrina fosse o verbo doutrinar no imperativo em paralelo com o verbo pregar.  Não se trata do emprego de dois imperativos, sugerindo uma progressão da evangelização ao discipulado.


Conclusão

“Pregue a palavra, esteja preparado a tempo e fora de tempo”- 2Tm 4:2 [NVI]. Esse também é o apelo de Paulo para cada um de nós. Devemos estar prontos para pregar a palavra, quer seja oportuno, ou não.

Hoje, gozamos de certa liberdade, mas, amanhã, poderemos enfrentar perseguições e muitas outras dificuldades para pregar a tão preciosa Palavra. Estaremos prontos! Isso é o que importa. 

Preparar-nos-emos, porque entendemos corretamente a mensagem de 2 Timóteo 4:2. E não pregaremos de maneira inconveniente, importunando os ouvintes, uma vez que conhecemos a maneira mais apropriada de anunciar as boas novas de Cristo!

“...estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência, de modo que, naquilo em que falam contra vós outros, fiquem envergonhados os que difamam o vosso bom procedimento em Cristo” 1 Pedro 3:15-16

Comentários

Deus sempre dá sabedoria a quem lha pedir,envangelizar sem entendimento pode ser usado pelo diabo para afastar ainda mais as pessoas, eu acredito que o crente pode envangelizar em qualquer sitio sem perturbar o ambiente.Se o crente tem esse dom ou essa vontade deve fazê-lo mas pessoalmente ou então na rua desde que esteja cradenciado para o fazer.
enho um blog Peregrino e servo, se desejar visitar ia deixar-me muito honrado.
Ps. Se desejar seguir meu blog será uma honra ter voce entre meus amigos virtuais, decerto irei retribuir com muito prazer. Siga de forma que possa dar com seu blog.
Deixo a minha benção e a paz de Jesus.

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